26 de abril de 2013

Capineira: Capim-Elefante ou Cana de açúcar?


Ascom Senar-PB

O capim-Elefante é tradicionalmente cultivado como capineira em várias regiões do nosso País com o intuito de manter os estoques forrageiros, principalmente durante a estação seca. Contudo, a cada ano que passa a cana de açúcar ganha mais destaque como volumoso no plano alimentar dos animais em função da sua alta capacidade de produção de matéria seca/ha e alta concentração de sacarose, fatores estes que impactam positivamente nos custos de alimentação, especialmente em rebanhos especializados.
Porém, antes de entrarmos em uma discussão mais profunda sobre as culturas, nós gostaríamos de fazer uma reflexão sobre a situação das cadeias produtivas brasileiras, principalmente a do leite. Os dados do último censo agropecuário realizado no Brasil (IBGE, 2006) mostraram que os pequenos produtores representavam a maioria em diversas cadeias produtivas. Na atividade leiteira, por exemplo, 58% deles possuíam pequenas propriedades ou desenvolviam agricultura familiar. Outro dado do censo de 2006 mostrou que, em média, as fazendas leiteiras brasileiras possuem apenas 24 vacas e que a produtividade dos animais é baixa. Se considerarmos os 10 países que mais produzem leite no mundo, o Brasil possui as vacas menos produtivas, estando somente atrás da Índia (USDA, 2012). Então, o cenário da maioria é: rebanho pequeno e não especializado.
Desse modo, as questões que nos intrigam são: Todas as propriedades devem possuir cana de açúcar como volumoso suplementar ou o capim-Elefante ainda nos interessa? Nós vamos ‘tapar os olhos’ para a maioria dos produtores e vamos olhar somente para os ‘grandões’, ou seja, recomendar em qualquer caso a cana de açúcar?
Nós levantamos estes questionamentos porque a maioria dos técnicos pensa somente naqueles pecuaristas que podem pagar por uma assistência técnica, os quais são capitalizados e produzem animais de melhor genética e, as políticas públicas brasileiras, esquecem-se da maioria, a qual, infelizmente, é descapitalizada e se encontra em uma situação de ‘abandono’. Desse modo, os pequenos ouvem sobre as recomendações feitas aos capitalizados, as quais nem sempre são úteis a eles. Um exemplo desta situação é qual cultura utilizar como capineira e, no fervor da era cana de açúcar, muitos pequenos substituíram a capineira de capim-Elefante por cana e agora estão retornando ao capim, pois não foram apresentadas a eles as diferenças de cunho agronômico e logístico que estas espécies possuem. Portanto, na Tabela 1 se encontram algumas vantagens e as desvantagens de cada cultura, cabendo ao técnico ou ao produtor fazer a sua escolha de acordo com a realidade do seu sistema de produção.

Tabela 1. Algumas vantagens e desvantagens das principais culturas utilizadas como capineira

Ressalta-se que o capim-Elefante demanda uma adequada reposição de nutrientes em sincronia à realização dos cortes, o que invariavelmente é negligenciado, pois o crescimento desta espécie, assim como dos demais capins tropicais, concentra-se na época de abundância das chuvas. O maior problema, no entanto, é verificado quanto ao modo como são conduzidos os cortes das capineiras. É comum observar crescimento máximo durante a época das águas, resultando em materiais altamente fibrosos e pobres em nutrientes para serem utilizados na época seca.
Para finalizar, gostaríamos de pontuar os seguintes aspectos, os quais merecem reflexão:
• As culturas não competem entre si, ou seja, nós devemos analisar os aspectos agronômicos, logísticos, econômicos e de infraestrutura, inclusive a disponibilidade e qualidade da mão de obra para decidirmos qual espécie cultivar;
• A cana de açúcar deve continuar sendo incorporada nos sistemas de produção brasileiros, contudo, com cautela, pois poderemos ‘queimar’ esta tecnologia caso ela não seja bem entendida por aqueles que a usam;
• O capim-Elefante pode e deve ser utilizado como opção forrageira, na forma de capineira, principalmente por aqueles que criam animais de baixo potencial de produção, que não possuem estrutura suficiente para substituir um canavial a cada 5-6 anos e que não consigam mudas de variedades produtivas de cana com certa facilidade. Isso não significa que nós estamos estimulando a baixa produtividade das fazendas. Apenas estamos adequando às situações do presente para que se tenha um cenário diferente e promissor para o futuro.
Fonte: BeefPoint/  Thiago Fernandes Bernardes e Rafael Camargo do Amaral