6 de julho de 2012

Reutilização da água melhora vida de agricultores nordestino


Ascom Senar-PB

O agricultor Wlisses Dantas dos Santos sabe o que é conviver com a escassez de água desde que nasceu, há 29 anos. Sabe também que é preciso encontrar formas de convivência com o semiárido nordestino e para o aproveitamento da pouca água que vem da cisterna. Wlisses mora com os pais, dois irmãos e um sobrinho na comunidade de São Geraldo, no município de Olho D Água do Borges, no Território Sertão do Apodi, a 320 quilômetros de Natal (RN). Dentro desta lógica de conviver em harmonia com o clima seco da região, há três anos, foi implantado o sistema bioágua na propriedade da família. A técnica reutiliza a água usada no banho, para lavar a roupa e a louça na irrigação e fertilização de verduras, frutas e plantas medicinais.
O bioágua foi desenvolvido pelo Projeto Dom Helder Câmara, com recursos do Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA), por meio da Secretaria de Desenvolvimento Territorial (SDT), em parceria com a Universidade Federal Rural do Semiárido (Ufersa). A assessoria técnica é prestada pela ONG Associação de Consultoria e Capacitação Técnica Orientada e Sustentável (Atos).
A água que sai das torneiras e do chuveiro segue para uma caixa, semelhante à caixa de gordura e, daí, num único cano, vai para dois filtros compostos por 10cm de pedra, 10cm de pedra lavada, 50cm de serragem e 10cm de húmus com minhoca. Ao fundo, um cano conduz a água filtrada e fertilizada para o tanque onde é armazenada no reservatório para ser usada na irrigação, com o sistema de gotejamento. “É a quantidade de água que determina o tamanho do canteiro de cada produtor e o método do gotejamento ajuda para que não tenha desperdício”, explica Wlisses.
Em 2012, mesmo com uma das piores estiagens das últimas cinco décadas, ele mostra com alegria a produção de beterraba, alface, tomate, coentro, cebolinha e pimentão. Na mesma área, ele cultiva plantas medicinais como malva, capim santo, corama, romã e mastruz, além de frutas como mamão, goiaba, pinha, acerola e seriguela. Tudo isso em um terreno de apenas 375 metros quadrados.
A produção alimenta as oito pessoas que vivem na propriedade de 55 hectares e o excedente é comercializado para as famílias vizinhas e nos mercados locais, complementando a renda que vem da carne e do leite da pequena criação de ovinos, bovinos e aves. “A gente sabe de onde vem o que estamos comendo e temos a certeza de que estamos fazendo a nossa parte para preservar o meio ambiente”, afirma.
Mais do que contribuir para a preservação ambiental, Wlisses e sua família estão prontos para usar a água de forma sustentável, mesmo quando a chuva chegar. “Isso aqui, que era um terreno com solo degradado e seco, se transformou no que vocês estão vendo”, mostra, orgulhoso, o agricultor. O que se vê na propriedade de Wlisses é mesmo um oásis no meio do sertão nordestino. Plantas de leucena e gliricídia deixam o clima mais ameno, e as folhas que caem são usadas como adubação verde.
A supervisora do Projeto Dom Helder Câmara no Território de Apodi, Rosane Gurgel, explica que o objetivo principal do bioágua é o aproveitamento máximo da água, com a possibilidade de irrigar culturas que antes sequer eram plantadas na propriedade. “Eles não tinham outra forma de plantar essas verduras antes da implantação deste sistema”, resume.
Rosane cita outras vantagens, como o tratamento de resíduos feito de maneira orgânica, a melhoria na segurança alimentar da família e, principalmente, a convivência com o clima do semiárido. Rosane lembra que, atualmente, apenas quatro famílias usam o sistema de reutilização da água, todas no Território do Apodi. “Estamos buscando parceiros para ampliar esse número porque a sua eficiência já foi comprovada, já obtivemos laudos técnicos da Anvisa de que estes alimentos são saudáveis e que desempenham um papel importante para essas famílias, inclusive econômico”, explica.
Projeto Dom Helder Câmara
Criado há dez anos, o Projeto Dom Helder Câmara é uma parceria do governo brasileiro e da Organização das Nações Unidas (ONU), representada pelo Fundo Internacional de Desenvolvimento Agrícola (Fida). Os recursos do Ministério do Desenvolvimento Agrário para assessoria técnica permanente no Sertão do Apodi somam R$ 977,4 mil, beneficiando mais de duas mil famílias. O projeto também desenvolve iniciativas nos estados da Paraíba, Ceará, Piauí, Pernambuco e Sergipe.
O diretor do Projeto Dom Helder Câmara, Espedito Rufino, avalia que a eficiência do Bioágua se deve ao fato de que capta e armazena a água que pode vir tanto de carros pipas, açudes e cisternas para ser usada nas residências e reaproveitada, com ganhos para as famílias. “O reuso da água não dialoga apenas com a questão ambiental, mas, também, com questões sociais já que é voltado às famílias mais pobres, para que melhorem a alimentação e, também, a renda, podendo comercializar o excedente da produção”, completa.
O diretor lembrou que devido ao baixo custo para implantação — cerca de R$ 3 mil –, a ideia é expandir o sistema para outras famílias do semiárido nordestino. “É um projeto simples, que utiliza matérias que são facilmente encontradas na própria região e que já teve sua eficiência comprovada”, acredita.

Fonte: Ministério do Desenvolvimento Agrário